Lei Seca

Um espaço para discutir as grandes questões. Editor-chefe: Luiz Augusto

Nome: Luiz Augusto

Advogado, vive em São Paulo

Sábado, Julho 04, 2009

O homem na frente do tanque

Correu mundo a imagem de um jovem chinês que, em meio aos protestos da praça da Paz Celestial, Pequim, ocorridos em 1989, desafiou a repressão comunista e bailou diante de uma coluna de tanques, detendo sua marcha.
Entretanto, é pouco sabido dos brasileiros que na semana passada um compatriota nosso, um verdadeiro gigante, que igualmente bailou na frente dos tanques, deixou este nosso mundo.
Goffredo da Silva Telles Jr., professor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, numa noite de 1977, em plena ditadura militar, leu no pátio da Faculdade um documento chamado Carta aos Brasileiros. Nele, Goffredo pedia a volta do Estado de Direito ao país.
Com a leitura da Carta Goffredo ficou sujeito a ser sequestrado, torturado, a virar desaparecido. Ajudou a tirar a legitimidade da ditadura, apoiada por juristas de menor estirpe. Foi uma tremenda ousadia e ato de destemor físico. Comparável a bailar na frente de um tanque.
Goffredo morreu sábado, dia 27 de junho de 2009.
A notícia, dada a este povo sem memória, ficou ofuscada pelos desdobramentos de outra morte , a de um cantor e bailarino americano, muito mais famoso (ou infame). Que nunca bailou na frente de tanque nenhum.

Sexta-feira, Abril 10, 2009

O Castelo do Drácula, São Paulo

O fim de semana acabara, e mais uma história de amor fracassada se encerrava. Tirei uma foto de Bia no aeroporto de Porto Alegre, mas não havia mais nada. Podia queimar aquele retrato depois que não fazia diferença. Ela nem se deu ao trabalho de sorrir para a câmera.
Embarquei no meu vôo, um corujão que chegaria muito tarde em São Paulo, e tentei não pensar mais nos últimos três dias. Fui até Novo Hamburgo encontrar esse menina. Passeamos em Gramado, Canela, fizemos todo o circuito romântico das serras gaúchas, mas não adiantou. A coisa não tinha futuro, concluímos. Era longe, não valia a pena.
Quando as rodas do avião tocaram o solo da pista de Guarulhos, eu já nem lembrava do Rio Grande do Sul. Eu tinha um problema mais imediato, e que demandava uma solução. Era bem tarde, e já não havia ônibus para minha cidade. Eu devia então optar entre pegar um táxi para lá direto (o que era mais caro) ou ficar num hotel em São Paulo e ir de ônibus no dia seguinte (mais econômico).
Na hora a opção mais em conta parecia ser ficar em São Paulo. Tomei um táxi e pedi que ele me levasse para um hotel. Pensei no Formula 1 da Avenida Paulista, confiável e não muito caro.
A Dutra e a Marginal estavam livres. Não disse nada o caminho todo. Por sorte não era um daqueles motoristas que ficavam puxando assunto.
Após quarenta minutos desembarco no dito hotel e constato que ele estava lotado. Que fazer?
Voltei até o táxi:
- O senhor conhece algum outro hotel...
Aí lancei a palavra fatídica:
- ...barato?
O chofer coçou a cabeça, disse conhecer um outro, no centro velho da cidade. Topei, sem imaginar o que me esperava.
Após outro trajeto, paramos nas proximidades da Praça da República, na frente de um hotel com um certo movimento de outros táxis. Um prédio velho, mas não parecia ameaçador.
Desço com minha mala e entro no saguão. Aí percebi no que estava me metendo. Era um treme-treme da pior qualidade. Aquele ar de espelunca. A luz vermelha. Baixo meretrício total.
Dou um pique para fora e vejo que o meu taxista já havia ido embora, como se fosse o cocheiro que largasse apressado visitas noturnas incautas no castelo do Conde Drácula. Os outros taxistas também sumiram de uma hora para outra, como por encanto. Eu teria que ficar lá.
Pedi um quarto, não tinha escolha. O recepcionista pegou uma muda de roupa de cama e pediu para que eu o seguisse por um corredor comprido, que continha diversas portas cerradas.
As atrações dantescas do castelo de Drácula começaram a brotar diante dos meus olhos.
A primeira era um quarto fechado com ripas de madeira, como se tivesse sido lacrado apressadamente pela Polícia. Seria uma cena de um crime?
Em seguida, diversos quartos e janelas fechados, cuja principal atividade era mesmo o meretrício. Gemidos femininos e respiração cortada e resfolegante vinham de trás de algumas das portas.
De uma das portas, súbito, surge um negro sem camisa segurando com uma das mãos as próprias calças e numa outra um telefone celular junto à orelha. Ele falava em inglês e parecia africano. Pelo que entendi de sua conversa telefônica, ele deveria no dia seguinte entregar um pacote a alguém. Seria ele um traficante nigeriano? Seria o pacote um quilo de cocaína ou uma arma de fogo?
Da porta entreaberta do quarto do africano pude notar com o canto dos olhos que havia uma mulher estirada de bruços em sua cama. De lá vinha um cheiro forte de cigarro. Tapei a respiração para não sentir os outros odores que eu imaginava que emanariam do quarto deles.
Mais alguns quartos fechados e cheguei no aposento que me era destinado.
A cama era um farrapo imundo. Não duvidava que estivesse cheia de insetos. O recepcionista me deixou com meu lençol e fronha, que tinham aspecto sujo. Usei o enxoval para forrar a cama. Resolvi dormir de roupa mesmo, para ter o menor contato possível com aquela cama suja. Tranquei a porta e coloquei minha mala na frente dela, à guisa de barricada. Verifiquei a janela de vidro que dava para o corredor. Ela estava trancada, mas não agüentaria uma invasão violenta.
Eu já estava com medo. E se uma daquelas meretrizes viesse de noite rasgar minha garganta? E se o africano resolvesse implicar comigo?
Era uma da manhã. Resolvi que iria dormir somente até as seis. Eu tinha que sair dali o mais rápido possível.
Mas quem disse que eu dormi? Vestido, naquela cama suja, eu passei a noite de olho na porta e na janela, vigilante. Só me faltava ter um mãos um crucifixo, pois eu esperava que próprio Nosferatu entraria pela porta em forma de lobo, ou pela janela, em forma de morcego. Eu sentia imaginárias baratas e percevejos escalando a cama e transitando sobre meu corpo.
O inútil despertador do relógio de pulso tocou às seis. Como dito, eu nem havia piscado naquela noite. Salto da cama, lavo o rosto apressado. Atravesso o corredor ligeiro com meus pertences.
O recepcionista ainda me oferece o café da manhã enquanto pago minha estada. Confiro o desjejum. Só havia pão com manteiga rançosa, leite azedo, e um suposto suco de laranja. Recuso a comida infernal.
Ainda estava escuro. Algumas criaturas da noite, travestis e taxistas, ainda rondavam as ruas da Praça da República. Arrasto minha mala até o metrô, rumo à rodoviária. Só me sentiria seguro após embarcar no meu ônibus. Nele embarcado pude então cerrar um pouco meus olhos, enquanto me afastava da maligna Transilvânia.
Antes de dormir, pensei nas palavras que me custaram tão caro naquela noite:
- O senhor conhece algum outro hotel...barato?
(Vincent Price termina essa narração com uma gargalhada diabólica: A ha ha ha ha ha ha ba ha ha ha...)

Quinta-feira, Abril 09, 2009

Ainda tenho blog?

Achava que minha senha nem entrava mais no blog.
Bom, esse é o primeiro post do ano, com algum atraso...

Quarta-feira, Dezembro 31, 2008

2009

O Lei Seca deseja aos seus leitores entradas bem gostosas em 2009. Quebra tudo!!!

Domingo, Novembro 30, 2008

A Arca do Centenário

Estudei Direito no Largo de São Francisco. Passei os dois primeiros anos na faculdade meio perdido. Não me destacava nos estudos. Entrei para o Centro Acadêmico e não me achei. Escrevi textos inflamados, com alguma repercussão, mas nada gloriosos. Gostava das festas e dos jogos jurídicos, e ia empurrando tudo com a barriga. Até que vi um anúncio num cartaz:
- Entre para a B.A.I.S.F.!
Era a Bateria de Agravo de Instrumento da São Francisco, responsável por fazer a trilha sonora da torcida nos jogos. Na época não vi muita graça no trocadilho com um dos recursos do nosso emaranhado processual civil.
Procurei me informar sobre quem era da Bateria, e não vi muita abertura para que eu entrasse, era uma panelinha de quintanistas que não parecia amistosa. Só quando o ano acabou (e eles se formaram) que a formação da B.A.I.S.F. mudou. Entrou um colega de classe, o Reinaldo, que logo tomou conta e começou a agitar as coisas, com novos integrantes e instrumentos.
Mas eu ainda não entraria na Bateria. Só nos Jogos Jurídicos seguintes eu iria me juntar à trupe. Vi Reinaldo e outros conhecidos de classe descendo do ônibus com os instrumentos, e precisando de ajuda para carregá-los até o estádio. Fui voluntário e peguei um dos bumbos mais pesados. Não havia ningúem para tocá-lo naquele dia.
No estádio, “vesti” o bumbo, e Reinaldo me deu um curso rápido sobre a bateria:
- Seu instrumento se chama surdo de segunda. Você vai alternar com o surdo de primeira, que é o do Lauro. A Vanessa vai ficar no surdo de terceira. Outros ficam nos repiques e atabaques. Acompanha eles e aprende.
E lá fomos nós. Tocávamos mal à beça, mas a torcida gostava. Passamos aqueles jogos correndo de um estádio para outro, empolgando a massa franciscana.
O time de futebol achava que nós éramos um estorvo, evitávamos seus jogo. Mas éramos queridos pelos Dinos, o nosso time de vôlei. Não perdemos nenhum jogo deles. Até porque tínhamos um bom amigo no escrete, o Tenório.
Terminei aqueles Jogos com as mãos calejadas, quase em carne viva, e meio surdo, sem trocadilho, completamente rouco de tanto xingar as outras faculdades, especialmente a PUC.
A B.A.I.S.F. fazia ensaios semanais, que comecei a frequentar. Alguns bons amigos se formaram naquele grupo. Passei a ser referência na faculdade sobre a Bateria. Gente nova queria entrar. Outros queriam saber quando ia ter ensaio, ou se podíamos tocar em alguma festa.
Outros jogos vieram. Num deles estávamos na nossa, tocando e entoando gritos de guerra, num nervoso jogo de handebol, contra a nossa arquinimiga PUC. Ao fim do jogo, mesmo com a PUC ganhando, alguns pucanos sacaram ovos e começaram a atirá-los na nossa torcida. Muita gente estava se machucando. A arquibancada se manchava de amarelo, correria. Alguns esquentadinhos da nossa torcida partiram para a agressão contra a PUC, e a rixa estava formada.
Os ovos continuavam a voar na nossa direção. Pucanos vinham para cima querendo nos bater. Reinaldo organizou a defesa:
- Se alguém chegar perto dos instrumentos vai apanhar!
Ergui o pesado surdo acima da cabeça como um escudo para me proteger dos ovos, e empunhei a baqueta para acertar qualquer um que se aproximasse. Algumas meninas da faculdade logo se abrigaram atrás de mim e do surdo. Isso fez com que eu me sentisse um dos 300 de Esparta, a última linha de defesa contra os bárbaros. Aquelas meninas, as mulheres de nossa tribo, estavam dependendo de mim. O surdo era pesado, mas eu não podia esmorecer. Os ovos se chocavam inúteis contra o couro e o metal do meu surdo.
Fechamos posição como uma falange, nenhum inimigo ousou se aproximar.
Ao fim de batalha nos reagrupamos, estávamos todos bem. Ninguém havia se machucado e nenhum instrumento se quebrou.
No ano seguinte entra para a Bateria um mestre profissional de samba, Alexandre, que nos mostrou como tocávamos mal, e trouxe um necessário apuro técnico ao nosso som. Ele nos ensinou muita coisa, como sambas-enredo e outros ritmos.
E entre um ônibus e outro, de um estádio para outro, muitos calos, curativos e cervejas depois, acabei a faculdade em 2001, e saí da B.A.I.S.F. Era o final de três anos loucos e inesquecíveis de excursões, apresentações, gritos, batalhas, derrotas e vitórias, tudo como titular do surdo de segunda
Em 2.003 leio a notícia de que o Centro Acadêmico XI de Agosto estava fechando uma cápsula do tempo com vários souvenires dos últimos anos. Ela se chamaria Arca do Centenário, ficaria por um século enterrada na calçada do Largo de São Francisco, e seria aberta somente em 2.103. Pensei, despretensiosamente, que teria sido bom ter feito alguma coisa digna de constar na Arca.
Logo depois da Arca ter sido lacrada e sepultada no Largo, encontro por acaso com Reinaldo, o líder da B.A.I.S.F. Ele me diz:
- Luiz, você viu? Colocaram uma foto do pessoal da B.A.I.S.F. dentro da Arca.
- Sério? E nos estamos nela?
- Todo mundo está.
Aí lembrei que tinha sido até ingrato com a Bateria, quando pensei que não havia feito nada digno de constar na Arca. Eu participei da honrosa Bateria de Agravo de Instrumento da São Francisco, em plena passagem do milênio. Eu sou eterno. Os homens do séc. XXII vão saber dos meus feitos.
Então, crianças do futuro, vamos combinar assim. Quando vocês abrirem a Arca do Centenário, em 2.103, e virem uma foto bem desbotada de um jovem estudante de Direito, branquelo e alto, sorridente e empunhando um enorme surdo, ao lado de outros rapazes e garotas valorosos, saibam que sou eu.
E, se tudo der certo, talvez vocês olhem para o lado e vejam no meio da multidão um velhinho já bem encarquilhado, de bengala ou cadeira de rodas, do alto de seus 124 anos, cercado de netos, sorrindo e achando aquilo tudo o máximo.

Segunda-feira, Outubro 27, 2008

Tempo

Continuo sem tempo para atualizar o blog. Quem tiver paciência, a ciência da paz, aguardará a minha volta. Courage!

Segunda-feira, Agosto 04, 2008

Polícia Secreta

Já era meu quinto dia de férias em Berlim, Alemanha, e o que era anunciado aconteceu. Eu e minha querida chegamos num impasse. Nossos caminhos iriam se separar. Antes que o leitor pense que narrarei um caso de amor que chega ao fim, é bom que eu explique o que se passou. Eu queria um programa mais cultural, e ela queria fazer compras. Só.
Então, nos separamos. Ela ficou numa avenida de grandes magazines e lojas. E eu estava livre para procurar um museu ou exposição interessante.
Peguei o U-Bahn, o metrô deles, e decidi ver algo do lado oriental da cidade, talvez um ponto histórico relacionado ao período de trevas totalitário. O guia de viagem dizia que, numa daquelas estações, existia um museu sobre a Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, terrível máquina de controle dos comunistas.
Uma caminhada após o desembarque do trem me leva até um prédio de aparência absolutamente ordinária. Não parecia ser ali. A dona de um quiosque de salsichas confirma que é lá mesmo. Visto do lobby, o lugar ainda não parece um museu. Pago a entrada e recebo um folheto do caixa, um senhor que parece meio espantado com a presença de um visitante.
Enquanto subo a escada ao andar seguinte, onde começava a exposição, tento absorver o máximo de informações do folheto. O prédio foi o quartel-general da Stasi, sigla do Ministério de Segurança chefiado por Erich Mielke, um militante comunista guindado ao poder pelos soviéticos após a Segunda Guerra Mundial. Esse departamento do poder da Alemanha Oriental era tão secreto que ninguém da população em geral sabia onde era sua sede, um centro nervoso do terror, de onde essa mesma população era controlada e vigiada. Para um transeunte, ali se tratava de um mero edifício residencial, marrom, opaco e imperceptível.
Circulo pelas salas. Numa haviam diversos objetos cotidianos transformados em aparelhos de espionagem. O guarda-chuva microfone. O cinzeiro que captava conversas. O chapéu com máquina fotográfica. Tudo muito James Bond.
Uma outra sala exibia típicas bandeiras socialistas, com martelo e foice, flâmulas e estátuas. Ao centro, o principal estandarte continha os rostos de três barbudos. Reconheci Marx e Lênin, os pais daquela desgraça toda. Se o melhor que o comunismo podia fazer de propaganda estava naquele cômodo, é fácil entender porque acabou. É muito sem graça e limitado. O capitalismo é mais criativo e colorido. Nossos ídolos são mais legais, até mesmo a Paris Hilton vence essas múmias antiquadas.
Passei em seguida para uma sala de reuniões preservada. Uma mesa como de jantar, comprida. Um busto de Lênin, sempre ele, num canto. E um painel com um mapa das então duas Alemanhas na parede, e que podia ser escondido com dois anteparos de madeira. Típica coisa de filme de espião dos anos 60. Só faltava um vilão (Erich Mielke?) na cabeceira da mesa, dando uma gargalhada, apontando o mapa e dizendo que iria conquistar o mundo.
A sala seguinte era a do próprio chefe da polícia secreta. Sua mesa com telefone. Um cofre permitia que ele escondesse seus segredos ali mesmo. Deu uma raiva daquele homem, que destruiu a vida de tanta gente, mas que teve poder e provavelmente uma vida bem confortável.
Antes de ir embora, fico sabendo que após a queda do Muro de Berlim, a casa caiu para Mielke. O bom povo alemão não deixaria barato aquela repressão toda. Na impossibilidade julgá-lo por fatos ocorridos nos tempos de comunismo, a Justiça alemã buscou uma saída. A velhice de Erich foi importunada com um processo criminal pelo assassinato de dois policiais ocorridos na década de 20, e até então impunes. O déspota passou uns anos na cadeia e morreu sabendo que ele e seu regime estavam no lixo da História.
Pego o metrô de volta. Planejo descer em outra estação e ver uma rua chamada Karl Marx Alle, anunciada pelo guia como um exemplar do estilo arquitetônico soviético. Fico curioso.
Já dentro do trem, no meio da viagem, percebo uma movimentação estranha. Dois sujeitos que pareciam passageiros pediam licença em meio à multidão, pedindo os bilhetes de todos. São prontamente obedecidos. Sinto um calafrio e entrego o meu. Eles o examinam e me dizem em inglês que meu ticket não estava validado. Sou convidado a descer da composição.
Na plataforma eles me interrogam. Um deles é magro e mais sério. Outro é um gordinho mais paciente e simpático. São da segurança do metrô. Eles me explicam que meu bilhete é de três dias, mas deveria ter sido validado na entrada da estação. Não existem catracas em nenhuma parada do metrô berlinense.
Digo que havia comprado meu bilhete no hotel (o que era verdade) e que não sabia que ele deveria ter sido validado (em termos – eu queria que o bilhete durasse pelo menos o meu tempo de estada em Berlim). O gordinho pergunta de onde sou. Eu mostro o passaporte brasileiro. Pergunta se eu falo alemão. Digo em inglês que não. Ele explica que é normal não saber das regras, complicadas para quem é de fora. Mas o problema é que meu bilhete era de fevereiro, e estávamos em maio. Eu poderia estar usando ele desde o começo do ano. O agente magro, enquanto isso, ficava no telefone, e percebi que falava com seus superiores do meu caso. Isso me deixava nervoso, e eu tentei disfarçar.
Como é que a segurança do metrô andava à paisana? Esperava gente uniformizada.
Perguntei ao gordinho:
- Vocês são da segurança do metrô?
- Ah, claro, desculpe. – Ele exibiu uma credencial pendurada no cinto.
O agente magro continuava às voltas com seus superiores. O gordinho aguardava instruções do colega, mas era simpático o suficiente para puxar assunto comigo, perguntando sobre o Brasil, talvez para quebrar o gelo. A situação era meio tensa.
Antes que o agente magro desligasse, lembrei de algo que podia me salvar:
- Eu não estou usando o bilhete desde fevereiro, é impossível. Cheguei aqui há quatro dias. Olhem meu passaporte.
O gordinho verifica que de fato desci em Frankfurt na data alegada. Conversa com o colega, que desliga o telefone. Eles concluem que estou de boa-fé, e o gordinho adverte:
- Olha, deveríamos lhe dar uma multa. Mas vamos levar você até a entrada da estação, o senhor valida o bilhete e pode voltar ao trem. E você já sabe a regra agora. Dito e feito, após eles me levarem até a máquina de validar, eles partem, intrépidos, em busca de outras fraudes no metrô.
Desço na estação da Karl Marx Alle já sem muita vontade de passear. Sento num café, ainda um pouco nervoso, e olho os prédios padronizados na mesma altura e estilo. Lembrava Brasília.
Pensava naquela tarde. À primeira vista, parecia estranha aquela queda pelo segredo, com agentes do metrô dando “incertas” em busca de passageiros fantasmas. Depois pareceu lógico. É um sistema de confiança, sem catracas. Todos tinham bilhetes, e ai de quem não tivesse, paga multa. Se eles usassem uniformes, não pegariam ninguém. Eles devem ter aprendido isso com o pessoal do lado oriental.
Não poderia imaginar, mas fui alvo de técnicas da finada Stasi.
Mais tarde entendi tudo. Se eles não deixaram nem o velho Erich Mielke em paz, aborrecendo-o com um processo por um crime de 70 anos atrás, porque deixariam escapar quem quer andar de metrô de graça?
Lembrar nessa hora de meu país, com sua Justiça lenta e incerta, com suas chacinas e latrocínios, seus traficantes e políticos, só me deixava pior. Que diferença desta Alemanha! Só torcia para que as compras de minha mulher tivessem sido boas.